Category: LONGA RENDAS NO AR


longa-metragem ficção, cor, 88′, 2014.
direção SANDRA ALVES
realização VAGALUZES FILMES

Vencedor do Edital Catarinense de Cinema 2009 – Categoria Longa-metragem

elenco MARINA MEDEIROS, MARIA GERTRUDES, RENATO TURNES, CHICO CAPRÁRIO, NARA SAKARÊ, ANGÉLICA FIGUERA, LILIH CURI, REJANE ARRUDA, IVO MÜLLER, MARCO CANONICI, LUCIANO MARTINS E SOUZA, JOSÉ LUIZ SCHOLL DE LIMA, BETO GUILGER, MELISSA FERREIRA, ILZE KÖRTING, VANDERLEI SILVA, FERNANDA ROSA, MATEUS COSTA, VERA LONGO.

Sinopse
O filme RENDAS NO AR trata da necessidade de liberdade inerente ao ser humano, em oposição à uma situação de clausura. A personagem principal, cuja personalidade é marcadamente irreverente e indomável, se depara com a opressão causada pelo confinamento a que é submetida por um homem, que passa a ser seu tutor após a morte súbita de seus pais. Herdeira de vultoso patrimônio, ela é interditada e depauperada de seus direitos, em função de sua condição de jovem mulher rica, órfã e supostamente louca, vivendo no final doséculo XIX na antiga Desterro.
Ana vive a sanidade através de sua poesia. Palavras e ações poéticas são laços que a unem à lucidez e ao seu universo interior são. Encontra no arquétipo feminino a expressão da liberdade na figura de Lilith, uma personagem etérea com quem dialoga sobre vida e morte, sobre a realidade que a cerca, sobre liberdade, ilusão, verdade, paradoxos, expansão, revolta e ousadia. Nesta relação nutre sua pulsão de vida e a alegria de viver que não permite que lhe roubem.

Sustentabilidade no Cinema!
Publicação na Revista LADO C, sobre a Direção de Arte do longa Rendas no Ar.

Parceria com Usina Da Alegria Planetária, produtora associada do filme.

Texto de Renato Bolelli Rebouças
Boa leitura!


Revista da Cinemateca Catarinense

O PROCESSO DE DIREÇÃO DE ARTE DO FILME RENDAS NO AR

O longa metragem Rendas no Ar, projeto vencedor do Edital Catarinense de Cinema 2009, dirigido por Sandra Alves e realizado pela Vagaluzes Filmes, desenvolveu um percurso baseado na realização cinematográfica integrada aos princípios da sustentabilidade, oferecendo em seu processo criativo um olhar abrangente sobre os modos de produção e busca de soluções.

Partindo do desafio de construir um imaginário calcado na memória brasileira com um orçamento limitado, todos os departamentos compartilharam escolhas que pudessem gerar economia de recursos sem, contudo, comprometer a criação; ao contrário, potencializando-a.

No campo da direção de arte, foi necessário um recorte específico de ações que permitisse chegar até o resultado final desejado. Para tanto, a Usina da Alegria Planetária (UAP), cuja premissa é a reinserção de materiais, desenhou um caminho abrangente. O coletivo multidisciplinar de artistas assinou a direção de arte e produção associada do filme.

O primeiro tema a trabalhar foi a espacialidade. Para apresentar a memória de um lugar instalado num passado “embaçado”, sem tempo definido (mas que margeia a transição entre os séculos XIX e XX), a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, em Gov. Celso Ramos, foi escolhida como locação para todo o filme, abarcando espaços “públicos” e áreas de convívio entre os personagens e espaços interiores, como o casarão da protagonista e sua clausura.

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombado em 1938, administrado pelo Projeto Fortalezas/UFSC, apoiador do filme,  a ilha foi ocupada pela equipe durante sete semanas em harmonia com os espaços de visitação (que atrai turistas o ano todo), a pequena comunidade que ali trabalha e do entorno e seu modo de vida.

Um memorial foi desenvolvido a fim de efetuar o menor impacto possível numa área de preservação, solicitando conhecimento técnico de profissionais da arquitetura e da museologia, definindo contornos bem específicos para a cenografia. Assim, visitados e analisados os edifícios e áreas livres, o próprio roteiro e a direção de Rendas no Ar buscaram explorar as disponibilidades do local, invertendo a lógica usualmente seguida de idealização- realização.

O uso de materiais leves e de fácil transporte foi uma premissa, já que tudo seria transportado por barcos até a ilha. Tecidos de diversos tipos e os próprios materiais naturais existentes, como troncos de árvores e pedras, auxiliaram a criação de espaços sintéticos e integrados com a paisagem, compostos a partir da simplicidade e da organicidade.

Em pararelo à compreensão da escala urbana e à logística de ocupação da ilha, outro elemento escolhido para a construção da visualidade foi o trabalho com a renda. Este fazer, tão característico do litoral brasileiro e, em especial de Florianópolis, através de sua tradição açoriana, abriu possibilidades ao desdobrar-se além dos figurinos e abarcar a criação de um território entre cheios e vazios. As imagens, as arquiteturas, o dressing e as caracterizações das personagens seguiram então um processo similar ao de feitura das rendas, sendo pouco a pouco revelados, sobrepostos, refeitos, rasgados e até mesmo dilacerados pelo tempo, pelas relações e pela memória pulsante trancafiada em corpos e espaços.

Somados lugares e imaginário, definiu-se uma palheta de cores bem específica, a fim de valorizar e distinguir os temas e emoções tratados na trama. Assim, a ilha e seus habitantes, gente camuflada à paisagem, que age em veladura, foi representada pelo verde em texturas mais rudes e populares. Como um camaleão, deveriam perder-se na vegetação, sorratear-se na paisagem. O território poético da protagonista Ana variou entre brancos, beges até o azul profundo, ganhando autenticidade, profundidade e dureza diante dos conflitos e desafios a que é submetida, aludindo ao mar. A dama de companhia da protagonista, seguiu através dos tons quentes como o vinho, transitando entre maturidade e repressão, conduta moral e sexualidade. Em negro, Lilith, imaginário fantástico que permanece aberto ao espectador se realidade ou um desdobramento personificado de um impulso interno, opondo-se à ao cromatismo e apresentando-se como movimento, energia, sem contornos precisos.

Após a definição da proposta e as referências estéticas, a compreensão de como organizar cada espaço poético e a palheta de cores, a equipe deu início à realização.

COLABORAÇÃO E PARCERIAS

A apropriação da ilha, além do ambiente e da arquitetura, uniu a intenção de não realizar uma reconstrução de um tempo histórico à utilização de materiais descartados e abandonados, coletados durante a pré-produção em Florianópolis, em São Paulo e Cotia, onde fica a sede da UAP.

A coleta e reinserção de materiais foi apontada como um caminho livre para a criação, permitindo limites incertos entre tempos e espaços e reforçando o imaginário entre as épocas. Nesta perspectiva, a história dos materiais e a memória inscrita nos objetos participam como discurso poético na composição das imagens, e seu emprego se dá tanto nas ambientações como na indumentária.

Assim, iniciou-se a construção de uma rede em colaboração entre a equipe de direção de arte, a produção do filme, moradores das cidades citadas e outros participantes do processo, a fim de pesquisar, rastrear, coletar, transformar e realizar objetos, roupas e tantos outros elementos. A ideia de compor um “solo arqueológico”, território onde o transcorrer do tempo é evidenciado em formas, materiais e “coisas” foi aos poucos sendo intensificada.

Em Florianópolis foram pesquisados e visitados instituições, lojas, casas particulares e outros espaços a fim de encontrar mobiliário, objetos e peças têxteis que se aproximavam do repertório delimitado. O interesse deu-se por locais não oficiais, como museus, mas que conservassem tipos específicos de memórias e modos de viver, como escolas, igrejas, hospitais, bazares, lojas de móveis usados e casas “particulares”, como a de familiares e amigos.

Esta forma de trabalho, ao manter-se aberta em parte de sua execução, pode gerar angustias por parte dos criadores por não manter em suas rédeas todos os detalhes mas, ao mesmo tempo, permite que o inesperado possa acontecer. Um saudável exemplo foi a descoberta do Museu do Lixo durante a pesquisa, que possui um surpreendente acervo de peças descartadas encontradas no lixo, indo de encontro ao repertório formal apontado. Lá foram coletados inúmeros elementos que em grande parte mantiveram suas características e também foram reinventados, recebendo novos revestimentos, cores ou algum tratamento especial para chegar às tonalidades ou texturas necessárias.

Ainda, foram criados instrumentos para ampliar esta ação, como uma campanha de coleta de materiais para o filme (empréstimos ou doações), assim como o workshop Tramas, compartilhando processos e atraindo para colaborar com a equipe de direção de arte artistas locais, colecionadores, rendeiras, interessados e estudantes das áreas de cinema e artes.

A identificação da comunidade participante com a memória de suas “coisas” emprestadas e cedidas, outrora tão íntimas e aqui elevadas à categoria de “objetos artísticos” aproxima de maneira intensa o cidadão da realização cinematográfica, oferecendo possibilidades de gerar conhecimento, repertório e inclusão da cidade com a arte.

Para a realização dos figurinos e da indumentária, o mesmo princípio foi seguido. A partir da seleção de peças existentes no acervo da UAP, deu-se a busca por roupas que pudessem ser transformadas e que de alguma forma se aproximavam das intenções do figurinista, fosse pelo formato/corte, cor, tecido ou padrão de estamparia. Uma vez selecionado e categorizado, este grande acervo foi dando vazão a um processo de criação a partir do que existia. Poucos croquis foram realizados, tendo a equipe liberdade para desenvolver cada peça a partir de processos artesanais como tingimentos, aplicações, remodelagens e acabamentos.

Foram consultadas indústrias têxteis residentes no Estado de Santa Catarina em busca de parcerias. Desta empreitada, houve a doação de um lote de refugo de passamanarias, rendas e bordados industriais (tanto em tecidos como em apliques) por uma famosa empresa da região. Este material foi empregado em inúmeras peças, com destaque a um conjunto de blusa e saia usado pela protagonista, todo com apliques formando desenhos e tingidos de um leve azul, um dos pontos altos do trabalho.

Esta prática potencializa o envolvimento com as tradições locais, de modo que não apenas a troca com as pessoas ao redor, com seus objetos e histórias cria camadas de significação e importância para cada elemento, como também o encontro diretamente com os fazeres artesanais arraigados da região, valorizando nossa origem e história. Foi assim com as rendas.

Diversas rendeiras que participaram do workshop desenvolveram peças exclusivas para alguns figurinos. A Tramóia (tipo de ponto), por exemplo, só é feita nesta região. O motivo Maria Morena (que nomeia uma das personagens), também é específico. Estes e outros foram empregados na caracterização da figura de Lilith, criando um emaranhado riquíssimo de tramas na cor preta, com volumes não usuais, reinventando assim o próprio fazer.

A FILMAGEM

Após a chegada de todos os elementos necessários até a ilha, a equipe se ampliara com a inclusão de assistentes provenientes da experiência do workshop, e parceiros que haviam cedido objetos importantes, parte material de suas historias, para contar esta nova história.

O modo de produção durante uma filmagem apresenta imprevistos a todo instante e, neste caso, era necessário habitar uma ilha-casa de maneira a colaborar com suas próprias condições patrimoniais e limitações físicas ou construtivas, com relação aos seus edifícios. A experiência da natureza presente em diversos aspectos práticos, como o transporte marítimo, as marés, ventos e chuvas, por exemplo, deixava claro posturas que foram seguidas. Este aprendizado se dá no tempo, nas correções que foram identificadas dia após dia, em busca de afinar os sentidos para uma prática sustentável durante as inúmeras demandas que integram esta etapa do processo.

Desta forma, muitos materiais foram utilizados mais de uma vez para compor ambientes diferentes, sendo modificados ou utilizados de novas maneiras. Essa grande composição, resultado da interação da equipe de arte com todas as outras equipes e sobretudo com o lugar, gerou cartografias pessoais e ao mesmo tempo flexíveis, pois amparadas em outros interesses que não a execução autoritária de um percurso previamente estipulado.

Este mérito confere não só ao trabalho da direção de arte mas ao filme como um todo, um processo inovador aberto à experiência em busca de ações condizentes com nossas possibilidades. Como artistas, não podemos nos desvincular deste momento crítico da humanidade, do fim dos recursos naturais e matéria prima disponível. Não se trata de criar um discurso ecologicamente solidário, mas antes, desenvolver ações que possam consumir fontes já existentes, tão disponíveis quanto as outras, que solicitam o reencontro com caminhos menos espetaculosos, mais abrangentes e, portanto, potencialmente criativos.

Texto:

Renato Bolelli Rebouças

Arquiteto, cenógrafo e diretor de arte

Direção de Arte do filme Rendas no Ar: Renato Bolelli Rebouças, Kabila Aruanda, Beto Guilger e Vivianne Kiritani / Usina da Alegria Planetária

Foto/frames do filme: Daraca

Roteiro do filme: Vera Longo, Sandra Alves

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filmagem do longa rendas no ar, de sandra alves, concluída em setembro 2011

A Vagaluzes Filmes foi selecionada a participar do Seminário de Prestação de Contas de Projetos Audiovisuais, no escritório da Agência Nacional do Cinema – Ancine, dia 16 de dezembro, em São Paulo. O seminário vai abordar os mecanismos de financiamento, a base legal envolvida e aspectos práticos da comprovação de contas, com o propósito de qualificar a prestação de contas de projetos à Ancine

O longa-metragem Rendas no Ar, da Vagaluzes Filmes, foi aprovado pela Ancine e está apto a captar recursos por meio da Lei do Audiovisual (Artigo 1 A), que prevê a dedução fiscal de 100% do imposto de renda de empresas patrocinadoras.